
Estudos científicos revelam que alinhar nossas expectativas à realidade é um ingrediente crucial na receita da felicidade. Mas essa máxima, cunhada para a vida pessoal, ecoa com igual ressonância no palco da economia.
Em uma sociedade, as expectativas dos agentes econômicos – empresas, consumidores, investidores – são como o maestro de uma orquestra. Se suas expectativas em relação ao futuro são otimistas, a melodia se transforma em investimentos, crescimento e prosperidade. Se o pessimismo toma o palco, a sinfonia se transforma em cautela, e o ritmo econômico desacelera.
No Brasil, um termômetro crucial dessas expectativas é o Boletim Focus do Banco Central. Semanalmente, ele nos revela o humor do mercado em relação a vários dados econômicos, com destaque para a inflação. E, infelizmente, a melodia tem sido cada vez mais dissonante. A expectativa de inflação para 2025, após abrir o ano passado em 3,50%, iniciou este ano na casa dos 5,0% e tem subido o tom, semana após semana, atingindo agora 5,58%.
Essa escalada, por si só, não é uma catástrofe. Mas o problema é que ela pode corroer a confiança na capacidade do Banco Central de controlar a inflação. Essa "desancoragem" das expectativas é como um vírus que se espalha, contaminando as decisões de investimento e juros. Se a inflação teimar em desafinar, o Banco Central se verá compelido a aumentar cada vez mais a Selic, enquanto os juros futuros, regidos pelo mercado, também subirão. Juros mais altos são como um freio em um carro: podem conter a inflação, mas também inibem o crescimento econômico.
O desafio, portanto, é domar as expectativas. Enquanto o Banco Central tem feito sua parte, mostrando compromisso com a meta de inflação, é preciso também que o governo federal sinalize que está no mesmo compasso, cumprindo as promessas no plano fiscal.
Obter de volta a confiança do mercado é o primeiro passo para a economia brasileira voltar ao desejado ritmo de crescimento, sustentável e com inflação controlada. Caso contrário, corremos o risco de valsar em círculos, patinando em um mar de incertezas.